A influência do dólar no bolso dos consumidores

Basta entrar no supermercado para constatar: os alimentos encareceram. A alta está prejudicando o Brasil, que, já não bastasse ter de lidar com os riscos da Covid-19 e seus impactos, ainda voltou ao Mapa da Fome da ONU (Organização das Nações Unidas), de onde havia saído há sete anos.

Em 2020, a alta dos alimentos foi a maior desde a implantação do Real, em 1994. A inflação está tão alta que supera os índices observados nas crises de 2003 e de 2008, e, nos alimentos, a inflação é três vezes superior à taxa oficial.

O reajuste dos preços chegou a todos os setores da alimentação. 

No ano passado, a principal polêmica foi o preço do pacote de 5 quilos do arroz, um item básico na mesa dos brasileiros que, de R$ 15 passou a custar R$ 40 no mês de setembro. Isso representa 6% do Auxílio Emergencial pago às parcelas mais necessitadas da população em 2020. 

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Neste ano, é o preço da carne bovina que preocupa. Segundo o Instituto Mato-Grossense de Agropecuária de Mato Grosso (Imea), o quilo da alcatra sai por R$ 42,82, o coxão mole por R$ 35,43 e o patinho por R$ 33,65.

A alta foi de 18%, sem perspectiva de queda, e o consumo desta proteína já está em seu menor nível desde 1996.

Há alguns fatores para a inflação nos alimentos, antes mesmo dos itens chegarem aos varejistas que vão distribuí-los para os consumidores.

O gatilho é a escalada do dólar, que afeta toda a economia. Entenda: 

Alta do dólar

No último ano, o real sofreu uma desvalorização de quase 30% em relação à moeda estrangeira, fazendo o dólar ultrapassar os R $5,30.

Entre os motivos, estão a incerteza econômica devido ao aumento do déficit e dos gastos públicos e ao risco que o coronavírus causou.

Como o dólar é referência nas transações internacionais, a alta causa um efeito inflacionário em todos os setores da economia.

Um dos mais afetados são os commodities agrícolas – como o trigo e a soja, que servem de base para o pão, o macarrão, o óleo e a ração de porcos e frangos que posteriormente vão para o prato.

Eles são negociados no mercado internacional, e o baixo poder de compra do real torna os produtos mais caros no mercado doméstico.

Mais exportações para China

A política chinesa de importação de alimentos tem se beneficiado da desvalorização do real.

O país está comprando muito mais do Brasil, o que desabastece o mercado interno (uma vez que a falta de reserva para o mercado interno é uma estratégia de política nacional), e causa um aumento nos preços. 

O Brasil é um grande exportador justamente de commodities agrícolas, e a China é o principal destino de exportação da soja.

As exportações de carne bovina também serão positivas em 2021 e os suínos já bateram recorde de exportação para o país em março.

Preço dos combustíveis

Encher o tanque ficou mais caro, não apenas para os consumidores, mas também para toda a cadeia logística de distribuição e produtos no Brasil.

O custo também teve efeito nas gôndolas do mercado.

O preço da gasolina e do etanol, diretamente relacionados ao dólar, subiram mais de 10% em março de 2021, segundo levantamento realizado pela IPTL – Índice de Preços Ticket Log.

O litro do primeiro já se aproxima de R$ 6,00, enquanto que o etanol tem valor médio de R$ 4,59 o litro. 

Alta na demanda interna

Com o isolamento social, as pessoas passaram a consumir mais alimentos adquiridos no mercado, e, com o Auxílio Emergencial, cerca de 60 milhões de brasileiros aumentaram sua renda, e uma parcela dos beneficiados passou a ter acesso ao alimento. 

Em menor grau, a alta demanda pelos itens alimentícios contribuiu para a disparada dos preços.

É a lei da oferta e da procura, que determina os preços no mercado.

Como controlar os preços dos alimentos?

Não há consenso entre os especialistas para normalizar a situação. Há quem acredite ser necessário intervencionismo do Governo, enquanto outros dizem que o mercado se autorregula.

As medidas efetivas tomadas pelo Ministério da Agricultura foram políticas de incentivo à oferta, com financiamento de linhas de créditos, seguros, apoio de comercialização e estruturação de cadeias.

Para solucionar o problema com o arroz no último ano, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) zerou temporariamente a tarifa de importação do alimento, o que contribuiu com o valor razoável atual do item. 

O presidente Jair Bolsonaro pediu até mesmo à Associação do Setor de Supermercados apoio para que a margem de lucro do varejo seja mínima, de forma a evitar a alta do valor dos alimentos básicos.

No ano passado, o Ministério da Justiça chegou a notificar supermercados e produtores pela alta nos itens da cesta básica, cobrando explicações.

A notificação foi criticada pelo Ministério da Economia, que descartou um tabelamento de preços.

Um eventual bloqueio nas exportações para suprir a demanda interna já foi descartado. 

A expectativa é que a queda do dólar e o aumento na produção de alimentos equilibrem o descontrole inflacionário no Brasil para que o consumidor volte a encontrar, no supermercado que frequenta, itens acessíveis.

Uma das possibilidades é também seguir o comportamento atual e optar por comprar em supermercados online. Eles ajudam a encontrar promoções.  

Gabriel Dau

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