Protagonismo brasileiro em sustentabilidade e normas internacionais ganha destaque na 16ª Conferência Brasileira de Contabilidade e Auditoria Independente do Ibracon
Sustentabilidade, normas internacionais e transformação regulatória dominaram os debates do segundo dia da 16ª Conferência Brasileira de Contabilidade e Auditoria Independente e Conferência Latino-Americano de Auditoria & Governança promovida pelo Ibracon – Instituto de Auditoria Independente do Brasil. Ao longo da programação, representantes dos principais organismos globais da profissão destacaram o papel de liderança exercido pelo Brasil na adoção de padrões internacionais e discutiram os desafios que acompanharão a próxima fase de evolução da auditoria e da contabilidade.
A programação foi aberta com o painel “Auditoria: Perspectivas Globais e Caminhos da Profissão”, que reuniu representantes das principais organizações responsáveis pelo desenvolvimento de normas e pelo fortalecimento da profissão em âmbito internacional. Moderado por Amaro Gomes, membro do Board do IAASB, o debate contou com a participação de Tom Seidenstein, presidente do International Auditing and Assurance Standards Board (IAASB); Jean Bouquot, presidente da International Federation of Accountants (IFAC); e Nelson Hahn, presidente da Asociación Interamericana de Contabilidad (AIC).
Dados apresentados por Amaro Gomes, que serão divulgados pelo IFAC em julho, mostram que o percentual de empresas com asseguração de relatórios de sustentabilidade avançou de 55% para 59% no cenário global, enquanto o Brasil registrou um crescimento de 57% para 73%, consolidando-se entre as jurisdições de maior destaque nessa agenda.
Para Nelson Hahn, presidente da AIC, a evolução dos mercados exige uma ampliação das expectativas em relação à auditoria. “Os acionistas querem mais do que um relatório de auditoria. Eles querem compreender o futuro. Por isso, a auditoria continuará sendo fundamental. Ela gera confiança, credibilidade e respeito público. Mas precisará agregar ainda mais valor, ajudando na tomada de decisões e contribuindo para o desenvolvimento da sociedade”, explicou.
Tom Seidenstein reforçou a importância da participação brasileira nos processos de desenvolvimento das normas internacionais e destacou o compromisso do IAASB em apoiar sua implementação nas diferentes jurisdições.
“Quero reforçar a importância da participação ativa do Brasil nos nossos processos. O país exerce uma posição de liderança muito relevante e esperamos que continue desempenhando esse papel. Sabemos que a implementação de novas normas e novos requisitos não é uma tarefa simples. Por isso, queremos atuar como parceiros nesse processo, apoiando profissionais e organizações na adoção e aplicação dessas mudanças”, disse.
O avanço da agenda de sustentabilidade permeou boa parte das discussões durante o segundo dia, especialmente após a decisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) de suspender a obrigatoriedade da Resolução 193, que estabelecia requisitos de divulgação de informações de sustentabilidade para companhias abertas.
Durante o debate, o presidente do Ibracon, Sebastian Soares, anunciou o envio de uma carta conjunta assinada pelo Ibracon, Conselho Federal de Contabilidade (CFC), APIMEC, FIPECAFI, IBGC, ANEFAC, AMEC, B3 e Anbima. O documento manifesta preocupação com a revogação da Resolução 193 e reafirma o compromisso do Brasil com a agenda de sustentabilidade e com a convergência aos padrões internacionais de divulgação e asseguração.
“O intuito não é questionar a autoridade da autarquia, mas colocar as nossas preocupações enquanto o Brasil estava, e espero que continue, na vanguarda dessa agenda de sustentabilidade. Para que a gente possa continuar batendo no peito com orgulho, falando que o Brasil tomou sim o protagonismo nessa agenda”, ressaltou.
Tom Seidenstein observou que as normas internacionais de asseguração relacionadas à sustentabilidade vêm se consolidando como referência global e destacou que a consistência na adoção desses padrões é mais relevante do que a discussão sobre sua obrigatoriedade.
Jean Bouquot reforçou o compromisso das entidades brasileiras com o processo de normatização internacional. “O CFC e o Ibracon têm o compromisso de continuar acompanhando e implementando as normas internacionais, encaminhando suas contribuições e participando ativamente desse processo. Esse é um esforço conjunto: promover a maior integração possível entre as jurisdições da região para que todas possam contribuir para o desenvolvimento das normas internacionais”, pontuou.
O segundo painel do dia, conduzido por Tiago Bernert, coordenador da Comissão Nacional de Normas Técnicas (CNNT), voltou-se aos projetos em andamento do International Accounting Standards Board (IASB) e aos desafios de implementação das normas contábeis internacionais na América Latina. A discussão reuniu representantes do IASB, da CVM, do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) e da Asociación Interamericana de Contabilidad (AIC).
Ao apresentar a agenda do IASB, Tadeu Cendon destacou que os usuários das demonstrações financeiras demandam cada vez mais transparência, comparabilidade e qualidade das divulgações, ampliando as exigências sobre empresas, reguladores e profissionais da área.
Patrina Buchanan abordou a implementação da IFRS 18, norma que reformula a estrutura das demonstrações de resultado com o objetivo de aumentar a comparabilidade entre organizações de diferentes setores e países. A norma entra em vigor para muitas empresas em 2026 e será obrigatória no Brasil a partir do próximo ano.
Para o representante da CVM, Oswaldo Nieto, apesar dos avanços nas estruturas de governança das companhias abertas, ainda há um grupo relevante de empresas que não se prepara adequadamente para a adoção de normas como a IFRS 18. “O que observamos é que falta planejamento e uma análise detalhada dos impactos que essas normas irão ocasionar para as companhias. A preparação precisa começar agora, não às vésperas da vigência”, reiterou.
Nieto também chamou atenção para o desafio permanente da supervisão de estimativas contábeis, especialmente em temas que exigem elevado grau de julgamento, como valor justo, provisões e impairment. Segundo ele, a qualidade dessas estimativas depende de um diálogo contínuo entre reguladores, empresas e auditores, fundamental para assegurar a confiabilidade das informações divulgadas ao mercado.
Encerrando a programação, o cientista político e diretor da Eurasia Group no Brasil, Silvio Cascione, ampliou a discussão para além do universo regulatório ao analisar os principais movimentos geopolíticos que moldam o ambiente de negócios global.
De acordo com Cascione, a combinação entre inteligência artificial, aumento do protecionismo comercial e mudanças na política de segurança nacional dos Estados Unidos cria novos desafios para empresas, investidores e profissionais de auditoria e compliance.
A avaliação, no entanto, foi de que o Brasil reúne condições favoráveis para ocupar uma posição relevante nesse novo contexto, desde que organizações e profissionais mantenham capacidade contínua de adaptação. “Tudo aquilo que foi discutido nesses últimos dois dias precisa ser pensado a partir dessa perspectiva: a gente não vive num tempo qualquer. Quem consegue se manter pronto para atuar nesse ambiente tem uma vantagem competitiva”, afirmou.
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