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Contabilidade

Confiança, responsabilidade e lançamento de livro marcam abertura da 16ª Conferência Brasileira de Contabilidade e Auditoria Independente

Evento reúne reguladores, juristas e especialistas no Teatro Bradesco, em São Paulo, e lança o segundo volume da obra sobre os papéis e limites da auditoria independente no ecossistema de governança

Autor: Carlos Eduardo

Publicado em

A construção da confiança em um mercado cada vez mais complexo e conectado foi o eixo central da abertura da 16ª Conferência Brasileira de Contabilidade e Auditoria Independente e Conferência Latino-Americana de Auditoria & Governança, promovida pelo Ibracon – Instituto de Auditoria Independente do Brasil, nesta terça-feira (2), em São Paulo.

A mensagem foi reforçada por autoridades dos principais órgãos reguladores e entidades da profissão contábil. Participaram da abertura o presidente do Ibracon, Sebastian Soares, o diretor de Fiscalização do Banco Central do Brasil, Ailton de Aquino Santos, além de manifestações em vídeo do presidente do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), Joaquim Bezerra, e do presidente indicado para a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Otto Lobo. 

© 2026 Luís França – www.luisfranca.net – Direitos reservados.

Sebastian Soares reafirmou que a auditoria independente não existe para eliminar todos os riscos do ambiente de negócios, mas para fortalecer a transparência, a qualidade da informação e a confiança dos stakeholders. “Mercados fortes não dependem de um único ator. Dependem de uma rede de responsabilidades compartilhadas. Se a gente quer tornar o Brasil um país forte e protagonista como polo de investimento, todos nós, coletivamente, precisamos assumir esse papel de gatekeepers”, destacou, ao defender uma visão sistêmica sobre a construção da credibilidade nos mercados. 

O diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino Santos, reforçou o papel estratégico da auditoria para a estabilidade do sistema financeiro nacional e apontou o avanço das exigências de asseguração como instrumento de fortalecimento do setor. Como exemplo, citou a nova regulamentação sobre ativos virtuais, que passa a exigir asseguração razoável realizada por auditor independente como requisito para autorização de funcionamento.

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“Quero destacar que esse movimento de ampliação das exigências de asseguração para processos de autorização do Banco Central fortalece todo o ecossistema financeiro. A presença de um auditor independente realizando asseguração desde o início das operações contribui para a solidez do sistema. Há quem diga que isso torna o processo mais caro, que o auditor independente custa caro. Mas caro, de fato, são as fraudes bilionárias”, enfatizou.

A CVM destacou a valorização do trabalho de auditores e contadores como gatekeepers fundamentais do mercado de capitais e ressaltou os investimentos em novas tecnologias, enforcement e capacidade institucional em curso na autarquia. Já o CFC chamou atenção para os desafios impostos pela transformação tecnológica e pelas novas exigências regulatórias, destacando que a confiança se consolidou como um dos ativos mais relevantes para organizações e investidores.

Pré-lançamento: “Auditoria Independente: missão e responsabilidades – Estudos e pareceres”

Entre os destaques da programação do primeiro dia da Conferência esteve o pré-lançamento do segundo volume da obra “Auditoria Independente: missão e responsabilidades – Estudos e pareceres”. Com lançamento oficial previsto para 20 de junho, o livro foi apresentado ao público em uma sessão que reuniu diversos coautores no palco.

“Mais do que um livro, trata-se de uma contribuição institucional para aprofundar a compreensão sobre os papéis, responsabilidades e limites dos diferentes agentes que atuam no ecossistema de governança” frisou Soares.

Confiança, responsabilidade e segurança jurídica na prática

O primeiro painel da conferência transformou os temas abordados no livro em uma discussão prática sobre responsabilidades, limites de atuação e segurança jurídica no exercício da auditoria independente.

Ao abordar a atuação sancionadora da autoridade monetária, Ailton Santos, do Banco Central, destacou princípios como transparência, ampla defesa e proporcionalidade, além de apresentar dados sobre processos envolvendo auditores independentes.

Adriana Toledo, Presidente do Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional (CRSFN) e do Conselho de Recursos do Sistema Nacional de Seguros, defendeu que o ceticismo profissional, elemento central da atividade de auditoria, precisa não apenas orientar o trabalho técnico, mas também estar adequadamente documentado. “Se não estiver, não conseguimos detectar que houve essa preocupação no trabalho,” destacou.

O professor Eduardo Flores, da Faculdade de Economia, Administração e Sustentabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), trouxe ao debate o conceito de audit expectation gap, expressão utilizada para descrever a distância entre aquilo que diferentes públicos esperam da auditoria e aquilo que efetivamente faz parte de suas atribuições.

“O auditor não é um investigador de polícia que usa terno e gravata. Ele não tem poder de polícia e não é responsável por encontrar fraudes. Quem elabora as demonstrações financeiras é a administração da entidade. Misturar isso inviabiliza a atividade de auditoria”, disse. 

Já Sergio Varella Bruna, sócio da Lobo de Rizzo Advogados, trouxe uma perspectiva histórica sobre a responsabilização de auditores independentes. Ao analisar 12 anos de jurisprudência do Banco Central, observou que apenas 21 casos envolvendo auditores foram julgados no período, número que, em sua avaliação, não aponta para uma falha estrutural da profissão, mas demonstra o rigor com que essas situações são examinadas.

Confiança em rede: papéis, responsabilidades e a governança do mercado de capitais

A discussão ganhou novas dimensões no segundo painel da manhã, que reuniu representantes do mercado de capitais, da imprensa especializada e da sociedade civil para debater os mecanismos necessários à preservação da confiança dos investidores. Com o tema “Confiança em Rede”, os participantes defenderam maior coordenação entre reguladores, aplicação efetiva das regras existentes e atuação integrada dos diversos agentes do mercado para fortalecer a confiança dos investidores.

Participaram Valéria Café, diretora-geral do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC); Fabio Coelho, presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec); José Carlos Doherty, o Zeca, diretor-executivo da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima); Guy Almeida Andrade, auditor independente e ex-presidente do Ibracon; e Fernando Torres, jornalista editor executivo do Valor Econômico.

© 2026 Luís França – www.luisfranca.net – Direitos reservados.

Ao longo do debate, prevaleceu a avaliação de que episódios recentes de fraudes corporativas não revelam falhas isoladas, mas expõem fragilidades em diferentes camadas da estrutura de governança.

Fábio Coelho observou que, diante de cada crise, a reação imediata da opinião pública é buscar um único responsável. Para ele, essa simplificação é compreensível, mas perigosa. “Se o investidor começa a ter dúvidas sobre se os números são reais ou fictícios, se os conselhos são decorativos, se os pareceres estão perdendo valor, o mercado simplesmente para de operar. O funcionamento do mercado se dá com base na confiança”, afirmou o presidente da Amec.

Guy Almeida Andrade reforçou que o auditor é um elo central, mas não isolado, dessa rede. “Sem o auditor, o mercado fica sem algo externo que diga ‘pode confiar’. Mas a credibilidade decorre de ações concretas, comportamento ético e alinhamento com todos os atores: administradores, analistas, investidores e o conjunto da governança.”

Outro ponto de convergência entre os participantes foi a necessidade de tornar mais efetivos os mecanismos de responsabilização e punição no país. Para José Carlos Doherty, da Anbima, o problema não está na insuficiência da regulação existente, mas na falta de consequências efetivas para quem frauda. Fernando Torres, do Valor Econômico, endossou a avaliação: “Me parece que é mais uma questão de enforcement e de fazer o processo sancionador funcionar do que de nova legislação.” E acrescentou: “Quando a punição demora, fica parecendo que não aconteceu. Justiça tardia também não é justiça”. 

O futuro da profissão da era da IA

Os impactos da inteligência artificial na profissão contábil e na auditoria foram discutidos em dois painéis da conferência, que abordaram desde os desafios éticos da tecnologia até seus reflexos sobre inclusão, diversidade e futuro do trabalho. Os debates destacaram que a IA representa uma transformação estrutural nos negócios e exige mais do que conhecimento técnico, porque requer pensamento crítico, responsabilidade e capacidade de julgamento humano.

Os participantes defenderam que o uso da tecnologia deve ser acompanhado por princípios de transparência, equidade e responsabilização, além de práticas que garantam segurança e confiança. Também ressaltaram que habilidades como ética, criatividade, empatia e visão crítica tendem a ganhar ainda mais relevância em um cenário de crescente automação e uso de sistemas inteligentes.

“Precisamos investir cada vez mais no treinamento pra grupos minorizados, para que a gente olhe de uma forma mais justa pro futuro”, afirmou Elaine Pasquinelli, membro do Comitê de Diversidade e Inclusão do Ibracon. 

Em um cenário marcado por avanços tecnológicos acelerados, as reflexões finais das últimas palestras lembraram que as competências mais valiosas continuam sendo essencialmente humanas: a capacidade de gerar confiança, agir com integridade e encontrar força para se reinventar diante das mudanças.

Estudantes apresentam soluções para os desafios da IA na auditoria

A transformação provocada pela Inteligência Artificial no mercado de trabalho e nos negócios também esteve no centro do debate da Conferência. A quarta edição do Hackathon desafiou estudantes a desenvolver soluções voltadas aos impactos e oportunidades da IA para a atividade de auditoria, estimulando inovação, pensamento crítico e aplicação prática de tecnologia. 

Ao final da competição, a equipe da Trevisan Escola de Negócios conquistou o primeiro lugar. A Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap) ficou com a segunda colocação, enquanto a Universidade Federal da Bahia (UFBA) garantiu o terceiro lugar.

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