Além de escrever contos, romances, peças teatrais, poemas e crônicas, o escritor carioca Machado de Assis tinha habilidade com os números. Uma pesquisa de cinco anos descobriu que ele dividia o dom com as palavras entre a profissão de contador, que lhe rendeu o cargo de responsável pelas contas do Ministério de Obras e Viação em 1873, o agora Ministério dos Transportes.
A descoberta partiu de uma curiosidade da professora Isabel Cristina Sartorelli. Isabel é doutora em contabilidade e professora adjunta do curso de graduação em administração da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus Sorocaba (SP). O trabalho foi concluído em 2016, publicado no fim do ano.
“Eu sabia que os números poderiam conviver harmonicamente com a literatura, e eu via alguma ligação do Machado com questões econômicas quando eu via os contos dele e observava que em vários tinha a figura do guarda livros, que seria o que é hoje o contador.”
Machado de Assis foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras e é tido por muitos como o maior nome da literatura nacional, por isso o fato de ter habilidades também com os número é inusitado.
A famosa frase “o dinheiro não traz felicidade, para quem não sabe o que fazer com ele”, já dava a dica da outra profissão de Assis. Graças a documentos históricos, como por exemplo a divulgação em um jornal da nomeação do escritor para um cargo público, Isabel conseguiu concluir o trabalho de pesquisa. “O que me deixou assim, especialmente feliz, porque aí realmente eu vi que pode existir sim o casamento entre os números e a literatura”, conta a professora.
A partir da descoberta, a pesquisadora teve ainda mais vontade de ler os romances e contos de Assis, responsável por obras como Dom Casmurro, Quincas Borba e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Os escritos do século 19, de um Brasil que ainda tinha escravos e não era República, são referências até hoje aos estudantes, principalmente nas listas de vestibulares. As obras inspiraram peças teatrais e montagens televisivas.
“Para mim, Machado de Assis foi alguém que buscou na Contabilidade um meio de sobrevivência, mas que sim, se dedicava a literatura. Mas nesse caminho ele não se furtava, não podia deixar de levar o dia a dia dele na contabilidade, dessas questões, para as obras dele”, acredita Isabel. “Então, nesse ponto, eu acho que esse trabalho é interessante porque ajuda a compreender o homem que existe por trás do então Machado de Assis, grande autor de gente conhece”, finaliza.
Publicações antigas em jornais ajudaram na pesquisa (Foto: Reprodução/TV TEM)
G1
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