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Um país de Coringas

O filme “Coringa” estreou recentemente no Brasil e tem provocado muitos comentários por diversas razões distintas. Seja por questões políticas, sociológicas ou psicológicas, a obra permite uma série de reflexões sobre a humanidade, em geral, e sobre o Brasil, em particular. O desconforto que a película produz em parte da plateia é algo a ser observado com atenção.
O protagonista que dá nome ao título é alguém desequilibrado mentalmente que, após ficar muito tempo calado, sendo submetido a situações de humilhação, explode em fúria. Quando isso ocorre, ele passa a apostar no caos, divertindo-se com a balbúrdia e galvanizando a atenção de uma turba ensandecida na cidade. A semelhança com a vida pública brasileira é evidente, independentemente de qual orientação ideológica esteja no poder. Seja à esquerda ou à direita, as figuras políticas estão primando pela adoção de posturas desarrazoadas há mais de quinze anos, sentindo-se legitimadas pelo apoio fanático de parte da população, dado o caráter personalista da comunidade nacional. A espetacularização do mal realizada pelo Coringa, durante uma cena em que é entrevistado na TV, guarda semelhança com a atitude ostensiva de desprezo a certo grau de decoro exigido pelo cargo ocupado por alguns líderes nacionais, fenômeno especialmente observado após o fim da gestão de Fernando Henrique Cardoso.
Sob o prisma psicológico, interessa observar a postura do palhaço magistralmente interpretado por Joaquin Phoenix, sob a direção de Todd Phillips. Em certo momento, o ressentimento e a frustração que o protagonista carrega dentro de si explodem em violência, exteriorizada em atos extremos, aceitos por parte da coletividade, a qual o idolatra. Há uma mudança de paradigma em que aquilo que era errado passa a ser o novo certo, dada a influência multiplicadora da ação do Coringa. Tal fenômeno também é observado em território nacional, no campo social e político.
Socialmente, a parcela da população que não foi ouvida durante muito tempo em questões econômicas e de costumes assomou no cenário da disputa por poder, vociferando o ressentimento que, até então, reprimira. Assim como o protagonista do filme muda seu comportamento (inclusive fisicamente, pois em vez da postura encurvada, passa a caminhar de modo mais ereto) quando tem acesso ao poder materializado em uma arma de fogo, a chegada ao cume político pela esquerda ou pela direita tem evidenciado a inabilidade em manter um canal de diálogo permanente e com fins republicanos com o interlocutor do campo oposto.
Isso não significa que chegarão a um consenso, mas permite a ventilação dos canais democráticos, algo em falta no Brasil há muitos anos. Quando o Coringa pinta não só o rosto, mas a própria língua, ele internaliza a personagem. Esse é o perigo a que está exposta a sociedade, quando solta seus monstros antes reprimidos e veste a máscara do mal, como demonstram as redes sociais e o ambiente político pós-FHC.

Último ponto a ser analisado diz respeito à influência que o filme pode produzir nas pessoas a partir da interpretação sobre a relação entre o personagem principal e o meio no qual está inserido.
Diferentemente do que se tem dito, Coringa não é vítima da sociedade, a qual apenas aciona gatilhos para sua explosão, com a imposição de dificuldades severas de sobrevivência, inclusive de modo violento em determinados momentos. Ele não é, de modo algum, inocente, ficando claro desde o início o distúrbio comportamental do protagonista.
A ideia de que a película pode fomentar atos ilícitos tem um pressuposto equivocado: que o bom se torna mau meramente pela indução por fatores externos, sem considerar a semente do mal inerente a todos os seres humanos. Não é um ser “do bem” que altera sua essência, mas alguém que não sabe lidar com as dificuldades existenciais. Como consequência preocupante da referida crítica, pode haver tentativa de censura à liberdade de expressão, supostamente pelo efeito que a ficção poderia causar sobre a realidade. Tal fenômeno é típico de uma sociedade que retira a responsabilidade dos seus indivíduos, infantilizando-os.
Violência simbólica da arte é catarse, forma de vazar a violência que cada um traz dentro de si, de modo potencial, sem ter que materializá-la. O incômodo, talvez, seja provocado pelo fato de que o espectador é obrigado a ver seu reflexo no espelho. Se a imagem não é boa, a tendência, narcisicamente, é repeli-la.
Elton Duarte Batalha – Professor de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Advogado. Doutor em Direito.
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