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CLT

PEC das Domésticas completa 5 anos; direitos não são fiscalizados

Autor: Ricardo de Freitas

Publicado em

Após cinco anos da promulgação da Emenda Constitucional 72, que entrou em vigor no dia 3 de abril de 2013, a medida, popularmente conhecida como PEC das domésticas, não propiciou mudanças significativas às trabalhadoras brasileiras desse setor, na opinião de especialistas. A falta de fiscalização dos direitos dessas profissionais é apontada como um dos principais motivos para que a lei não saísse do papel.

De acordo com Eliete Ferreira da Silva, coordenadora geral do Sindicato das/os Trabalhadoras/es Domésticas/os de Campinas e Região, segunda associação da categoria criada no país, os empregadores domésticos vêm encontrando formas de driblar a lei. “Mesmo que as trabalhadoras tenham jornada de 8 horas semanal, muitos empregadores não fazem o registro em carteira. E mesmo com registro, eles sonegam determinados direitos, como pagar só uma parcela do 13º, dispensar sem justa causa”, denunciou.

A rapper, professora de história e ex-empregada doméstica Joyce Fernandes, a Preta Rara é criadora da página “Eu empregada doméstica” no Facebook. Ela conta que recebe diariamente relatos de mulheres que tiveram seus direitos violados, ou de anúncios que ofertam empregos precarizados a elas.

“Lógico, trouxe uma garantia para elas, mas eu continuo recebendo anúncios de mulheres que trabalham oito horas por dia e ganham 30 reais. Ou que trabalharam de segunda a sexta, mais de 8 horas por dia, e no final do mês recebem 400, 300 reais. Então pouca coisa mudou”, afirmou.

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Segundo Juliane Furno, doutoranda em Desenvolvimento Econômico na Unicamp, um dos principais motivos por trás da dificuldade de fiscalizar as garantias trazidas pela PEC 72 é a grande informalidade do trabalho doméstico. Isso porque, as medidas trazidas pela lei — o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), o seguro acidente de trabalho, e a regulamentação das horas extras  —  contemplam apenas as trabalhadoras que têm carteira assinada.

“Acontece que a quantidade de trabalhadoras afetadas pela PEC é em torno de 31% da categoria só, que corresponde à porcentagem formalizada. Isso porque a PEC não vem com medidas fiscalizadoras. A carteira de trabalho para domésticas já é uma obrigação desde 1982, por exemplo, mas o fato de ser ilegal não faz com que haja formalização”, disse.

Furno acrescenta que, quando a PEC foi votada, suas defensoras imaginavam que ela impactaria na formalização da profissão. Mas não foi o que aconteceu. Em agosto de 2014, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) publicou a Instrução Normativa nº 110, que cria procedimentos de fiscalização do cumprimento das normas relativas à proteção do trabalho doméstico. A medida estabelece uma multa mínima de R$805,06 para o empregador que não assinar a carteira de trabalho do empregado doméstico. No entanto, a medida funciona apenas por meio de denúncias, e de acordo com Juliane Furno, não pode ser considerada uma fiscalização.

“É mais fácil alguém denunciar que existe trabalho escravo do que saber se a doméstica que trabalha em determinado lugar têm carteira assinada ou não”, afirmou. Procurado pela reportagem, o MTE não respondeu se existe algum tipo de documentação dessa medida até a publicação da reportagem.

Reforma Trabalhista

Com as mudanças na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) trazida pela Reforma que entrou em vigor em novembro de 2017, as especialistas avaliam que a precarização do trabalho doméstico aumentará.

“A precarização do trabalho doméstico já existe, mas com essa reforma trabalhista a tendência é piorar. Os relatos deixam isso muito evidente, e eu tenho recebido muitas mensagens com uma preocupação generalizada sobre como tudo vai ficar e como dar continuidade aos direitos”, afirmou Joyce Fernandes.

Para Juliane Furno, um dos pontos da nova lei que mais prejudicará as domésticas é a flexibilização da jornada de trabalho, que agora poderá chegar ao limite de 12 horas por dia, no regime 12X36, no qual deve-se folgar nas 36 horas seguintes.

“A jornada de trabalho foi o último direito a ser regulamentado pela PEC de 2013. É um direito muito significativo, porque a jornada não ser limitada era o principal motivo que fazia o trabalho doméstico ainda ter características análogas à escravidão, porque as trabalhadoras ficavam permanentemente à disposição do trabalhador. A Reforma tira esse mecanismo. É um bloqueamento muito precoce de um direito recém-adquirido”, afirmou.

Crise

Um dos principais debates sobre a PEC das Domésticas na época em que ela estava sendo votada é o de que sua aprovação levaria ao aumento do desemprego entre domésticas, pois os empregadores não estariam dispostos a gastar mais com os novos direitos. De acordo com Juliane Furno, no entanto, o emprego doméstico foi o único que teve saldo positivo de contratação nos últimos anos. Porém, ela destaca que este dado não é diretamente relacionado à aprovação da PEC, mas sim à crise econômica.

“Temos uma hipótese que em momento de crise econômica, os trabalhadores perdem emprego e as mulheres procuram se inserir da última forma que tem praticamente oferta ilimitada, que é o trabalho doméstico. Então, como muito mais mulheres passam a ofertar, o salário tende a cair muito. Hoje há um exército de reserva, um número de pessoas que se submetem a fazer esse trabalho por um valor menor”, afirmou.

O Brasil é o país com o maior número de trabalhadoras domésticas, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT). São cerca de 7 milhões de pessoas no setor. Em 2015, 5,7 das 6,2 de trabalhadoras domésticas eram mulheres, e 3,7 milhões eram negras e pardas. Em 2017, o trabalho doméstico respondeu por 6,8% dos empregos no país, e 14,6% dos empregos formais das mulheres. Via Brasil de Fato

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