Bem Estar
A crise econômica e o aumento dos casos de suicídios no Brasil

Nos últimos dois anos, a economia brasileira recuou 7,2%. Isso significa dizer que sobre o volume de bens, produtos e serviços que o Brasil produziu em 2014 houve um recuo de 7,2%. É a maior recessão da história e os números recentes mostram queda de 3,6% na atividade econômica como um todo só no ano passado. De quebra, temos quase 13 milhões de desempregados e o consumo das famílias também está em queda (4,2%).
Estes índices refletem a situação econômica e nos dizem muito. Nas entrelinhas, muitos brasileiros vendem o que têm e fazem malabarismo para colocar comida na mesa e sobreviver. Outra fração escolhe algumas contas para pagar e deixa outras vencidas, girando em débitos que só agravam o endividamento. O problema maior é que o desespero com a falta de perspectiva transforma o ambiente familiar em algo continuamente tenso e a gente ouve expressões que denotam ansiedade como “matar um leão por dia”, “fazer a correria de todos os dias”, “hoje eu tô assim, amanhã, ninguém sabe”.
Todos os dias, pelo menos 32 pessoas tiram a própria vida no Brasil, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Apesar da ligação estreita de patologias nos comportamentos suicidas, a crise econômica também tem se tornado um gatilho para colocar um fim à existência.
Embora sejam muitas as histórias apresentadas no noticiário, aqui ressalto algumas que chocaram o país. Em uma das situações, um homem matou a esposa a facadas, jogou os filhos de seu apartamento, no 18° andar, e se suicidou em seguida. O fato aconteceu no Rio de Janeiro, e o rapaz decidiu tirar a vida após concluir que ficaria desempregado. Na carta que escreveu antes de cometer os crimes, ele deixou a seguinte mensagem: “Me preocupa muito deixar minha família na mão. Sempre coloquei eles à frente de tudo ante essa decisão arriscada para ganhar mais. Mas está claro para mim que está insustentável e não vou conseguir levar adiante. Não vamos ter mais renda e não vou ter como sustentar a família. Melhor acabar com tudo isso logo e evitar o sofrimento de todos”.
Um caso parecido aconteceu em São Paulo, no mesmo dia, apenas 12 horas depois da morte da família carioca. Um motoboy, que estava desempregado e não teve seu nome revelado pela polícia, agarrou seu filho de apenas quatro anos e se jogou do 17º andar. Ele também deixou um bilhete de despedida, no qual reclamava de desemprego e de não conseguir pagar as dívidas que contraiu. “Às vezes, tem um suicida na sua frente e você não vê”, escreveu.
A falta de emprego representa um risco, como mostra um estudo financiado pela Universidade de Zurique. O levantamento revela que estar fora do mercado de trabalho é a causa de um a cada cinco suicídios no mundo. No entanto, engana-se quem pensa que o perigo só ronda pessoas endividadas e desempregadas.
Em Rio Claro (SP), o dono de uma empresa de sofás se suicidou após demitir 223 funcionários devido à crise – uma demissão em massa não acontecia na cidade há 20 anos.
Em ambos os casos (envolvendo patrão e empregado), o fator econômico foi o estopim para a explosão de uma crise emocional.
Sem perspectivas, é muito comum que as pessoas pensem na necessidade de definir rapidamente a vida profissional e ser bem-sucedidas. Esse imediatismo aumenta a frustração e, se somado a outros fatores (como a pulverização da família e relacionamentos amorosos cada vez mais curtos), pode abalar a estabilidade psíquica e aumentar o risco de transtornos e até mesmo levar à morte.
E isso não é de hoje. Há tempos diversas pesquisas apontam a relação entre o suicídio e as causas sociais. David Émile Durkheim, sociólogo, psicólogo e filósofo francês, foi o primeiro a analisar o aumento das taxas de suicídio em momentos de grave crise econômica, concluindo que esse contexto influencia nos números por serem perturbações da ordem social e coletiva e não necessariamente pelas consequências, como pobreza, fome, etc.
Só para termos ideia da força dessa relação, a Agência das Nações Unidas divulgou uma pesquisa na qual aponta que 75% dos casos de suicídio envolvem pessoas que sofrem com problemas socioeconômicos, em países onde a renda é considerada baixa ou média – um dado que nos faz refletir sobre a necessidade de investirmos em medidas de apoio à população.
Informar sobre os gatilhos (transtornos, vícios e circunstâncias, como o desemprego) que podem induzir ao comportamento suicida e divulgar canais como CVV (Centro de Valorização da Vida) – que oferece, voluntariamente e gratuitamente, apoio emocional a quem quer e precisa conversar – pode fazer toda a diferença.
As pessoas precisam saber que o suicídio pode ser evitado. Esse é o primeiro passo para que os momentos ruins sejam páginas viradas e as histórias não sejam precocemente interrompidas. E as pessoas precisam refletir com frieza nos momentos de maior angústia porque, como diz a poesia, dias melhores virão.
Leonardo Maranhão se formou em medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
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