Negócios
Protocolo Familiar Empresarial: Uma arma estratégica de governança corporativa

Como em muitas outras formas de relação, o ambiente de uma família empresária é pautado por emoções e passionalidades. É um universo de proximidade e de intimidade, onde a racionalidade, em certos casos, fica relegada a segundo plano.
E deixar à razão somente um espaço secundário pode gerar consequências adversas quando é preciso tomar decisões complexas e há negócios, patrimônio e um legado em jogo.
Mesmo em ambientes familiares saudáveis, onde o amor entre pais e filhos seja um sentimento muito presente, naturalmente ocorrerão conflitos.
Quando o racional é posto de lado, podem surgir ressentimentos e rompimentos que fatalmente prejudicarão os negócios.
É necessária uma vacina que seja capaz de minimizar um possível processo destrutivo, seja da organização, seja da própria genealogia.
Largamente utilizado na Europa e nos Estados Unidos, o Protocolo Familiar Empresarial tem essa função de deixar claro que: Família é família, negócios à parte.
São inúmeros os cases positivos de empresas que estabeleceram esse documento. Sua implementação, que têm valor contratual, é uma espécie de manual personalizado ou um código de boas práticas, específico para parentes que atuam na mesma organização.
É ferramenta-chave para integrar os proprietários e seus herdeiros à estrutura de governança corporativa de seus negócios.

No ocidente surgiu na década de 90, mas há raízes no célebre “Código de Honra” de famílias empresárias japonesas, como os Zaibatsu (uma das quatro mais poderosas do Japão), que alcançaram seu império por meio dessas regras estabelecidas em 1900.
Outro precedente foi o processo de protocolização que o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) criou a fim de estimular a profissionalização das empresas.
Um dos principais pontos de sua construção é a compreensão da diferença entre expectativa e combinação.
A primeira refere-se ao que está apenas na cabeça de uma pessoa ao passo que a combinação está na cabeça de duas ou mais. Apenas é possível cobrar aquilo que foi combinado.
Esse protocolo conterá as combinações entre a família em relação aos negócios, transformando expectativas individuais em acordos.
Ele é único, exclusivo e deve refletir a história, os valores e os objetivos da família empresária, além de estabelecer ou prever como os membros pretendem dar continuidade a esse legado.
Garantirá o estabelecimento de relações saudáveis e constituirá um cenário de crescimento sustentável e de solidez ao longo de cada geração.
Os principais tópicos devem ser selecionados por especialistas independentes, capazes de efetuar recomendações sobre as melhores práticas. O documento terá que ser respeitado por todos, com regulamentações coletivas, e deverá ser atualizado e revisado periodicamente.
Na maioria dos casos, o Protocolo Familiar nasce capitaneado pela geração seguinte e não pelo fundador. São mentes jovens, antenadas em conceitos modernos de gestão, governança e compliance, consequentemente mais aptos a quebrarem paradigmas ou dogmas enraizados em seus pais e tios.
Em um mundo digital e global é preciso gerar mecanismos que protejam o coração de uma família empresária de eventuais reações e sentimentos oriundos da natureza humana, como inveja, raiva, competição, mágoas e ressentimentos.
Expressões como no ‘fio do bigode’, ou ‘dar a minha palavra’, há muito tempo perderam o sentido no mundo das empresas de controle familiar, mesmo entre pais e filhos.
Por Ronaldo Nuzzi, presidente da Thompson Management Horizons, consultoria líder em projetos de Family Business
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