Economia
R$ 7 mil é o justo, mas o Brasil ainda não está pronto para pagar

O DIEESE divulgou que, para sustentar dignamente uma família de quatro pessoas no Brasil, o salário mínimo deveria ser de R$ 7.398,94. Hoje, ele é de R$ 1.518. A diferença é chocante, mas antes de reagir com indignação, é preciso entender o que esse número realmente diz – e por que ele, por enquanto, não cabe na realidade fiscal do país.
O valor calculado pelo DIEESE representa o ideal: o quanto uma família precisaria para cobrir despesas básicas como alimentação, moradia, saúde, educação e transporte. Já o salário mínimo oficial é o possível – o que o governo consegue pagar sem provocar um colapso orçamentário.
Esse valor impacta diretamente aposentadorias, pensões e outros benefícios. Ou seja: o governo não define o mínimo com base no que seria justo, mas no que cabe no bolso do setor público.
O resultado disso é uma equação delicada: se o salário mínimo é muito baixo, o trabalhador perde poder de compra, consome menos, e isso afeta o comércio, os serviços e, por tabela, o crescimento econômico. A engrenagem trava. O consumo é uma das principais forças da economia brasileira, e manter a renda achatada é como puxar o freio de mão no meio da subida.
Por outro lado, reajustes mal planejados – acima da inflação e sem base em produtividade – pressionam os custos das empresas, que inevitavelmente repassam para os preços. A inflação cresce, os ganhos se dissolvem e o próprio trabalhador volta ao ponto de partida. Esse ciclo é perigoso, especialmente quando o país já lida com contas públicas fragilizadas.
O caminho não é só subir o salário, mas preparar o país para isso
O Brasil precisa caminhar para um salário mínimo mais justo, mas esse caminho passa, obrigatoriamente, por crescimento econômico sustentado. Não dá para subir o salário à força. É preciso aumentar a produtividade, gerar mais empregos formais, qualificar a mão de obra e melhorar a eficiência do gasto público.
Também é essencial rever a estrutura tributária, que hoje pesa demais sobre o consumo e pouco sobre a renda. Uma reforma justa pode ajudar a reduzir desigualdades e, com o tempo, dar mais fôlego para que o salário mínimo se aproxime da realidade calculada pelo DIEESE – não como um desejo distante, mas como uma meta viável.
Dizer que o mínimo de R$ 7 mil é utópico é um erro, mas fingir que ele cabe no orçamento atual do país é ingenuidade. O que o estudo do DIEESE escancara é o abismo entre o que a população precisa e o que o Estado consegue oferecer.
Fechar esse abismo vai exigir coragem política, reformas estruturais e, principalmente, compromisso com o longo prazo. Na contramão, as projeções oficiais indicam aumentos bastante modestos até 2029, o que mostra que, na prática, essa distância ainda deve permanecer por alguns anos.
*Marcello Marin é contador, administrador, Mestre em Governança Corporativa e especialista em Recuperação Judicial

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