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Influenciador com 15 milhões de seguidores é preso por lavagem de dinheiro com criptomoedas e apostas

A prisão do influenciador Bruno Alexssander Souza Silva, conhecido como Buzeira, com 15 milhões de seguidores nas redes sociais, revelou um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro que une o mundo digital, o crime organizado e brechas nos mecanismos de controle financeiro. A Polícia Federal (PF) investiga a movimentação de centenas de milhões de reais por meio de apostas online, empresas de fachada e transações com criptomoedas.
A Operação Narco Bet, deflagrada nesta semana, bloqueou R$ 630 milhões em bens e contas bancárias. Segundo os investigadores, o grupo usava estruturas contábeis artificiais para dar aparência de legalidade a valores provenientes do tráfico internacional de drogas
Esquema contábil simulava legalidade
De acordo com a PF, a rede criminosa seguia as três etapas clássicas da lavagem de dinheiro. Na colocação, o dinheiro sujo era inserido no sistema por meio de apostas e criptomoedas. Na dissimulação, empresas de fachada emitiam notas fiscais frias de publicidade e consultoria. Por fim, na integração, os recursos voltavam ao mercado formal na forma de imóveis, veículos e patrocínios.
O contador Rodrigo de Paula Morgado é apontado como o operador financeiro do esquema. Ele teria usado escritórios contábeis para criar lançamentos fictícios e justificar movimentações incompatíveis com a realidade das empresas envolvidas. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicam que Morgado transferiu R$ 19,7 milhões para a empresa Buzeira Digital Ltda, sem comprovação econômica da origem do dinheiro.
Apostas e criptomoedas: a nova fronteira da lavagem
Parte do dinheiro teria circulado por plataformas de apostas esportivas e ativos digitais, dificultando o rastreamento. A PF identificou a utilização de plataformas sediadas no exterior, trocas constantes de CNPJs e cruzamento de notas fiscais entre empresas do mesmo grupo, tudo para legitimar lucros e despesas inexistentes.
Segundo o delegado Marcelo Maceiras, que coordena as investigações, o grupo tinha estrutura profissional. “Não era um esquema amador. Havia contadores, consultores e programadores estruturando as finanças para dar aparência de negócio legítimo”, afirmou.
Análise jurídica: especialista explica as brechas
O advogado criminalista Luiz Fernando Ortiz explicou, em entrevista ao portal Bacci Notícias, que o uso de criptomoedas é uma das principais razões para a sofisticação desses esquemas.
“As criptomoedas são amplamente utilizadas em esquemas de lavagem devido às suas características tecnológicas que proporcionam anonimato e ausência de intermediários. Na lavagem de capitais, o objetivo é ocultar a origem ilícita dos valores, e com criptoativos isso se torna mais complexo, dificultando o rastreamento da origem e do destino final dos recursos”, detalha Ortiz.
Segundo ele, a movimentação via apostas eletrônicas também favorece o disfarce de operações financeiras.
“As ‘bets’ envolvem transações constantes e em grande volume, muitas vezes sem regulação efetiva. Um valor ilícito pode ser inserido no sistema, convertido em créditos e depois sacado como se fosse fruto de ganhos regulares, mascarando a origem do dinheiro”, explica o advogado.
A PF sustenta que o padrão das transferências, do contador para o influenciador, é um dos indícios de ocultação da origem dos recursos, o que justificou o pedido de prisão preventiva. O principal crime investigado é o de lavagem de dinheiro, previsto na Lei nº 9.613/1998.
“A pena é de reclusão de três a dez anos, mais multa. Ela pode ser aumentada se o crime for cometido de forma reiterada, em organização criminosa ou com uso de atividades econômicas para mascarar o dinheiro ilícito. Além da lavagem, podem coexistir associação criminosa, estelionato e crimes contra a ordem tributária”, afirma Ortiz.
Bloqueio de bens e medidas cautelares
Entre as medidas determinadas pela Justiça estão o bloqueio de bens de luxo, como veículos, imóveis e embarcações. Essas decisões têm caráter cautelar e patrimonial, amparadas pela legislação penal.
“O bloqueio e a apreensão impedem a dissipação do patrimônio ilícito e garantem o confisco caso haja condenação. São medidas preventivas para evitar que os investigados ocultem ou transfiram valores, o que inviabilizaria a recuperação do produto do crime”, afirmou.
Segundo ele, em investigações complexas como essa, com movimentações milionárias e uso de criptoativos, o bloqueio de ativos é essencial para preservar o resultado útil do processo penal.
Falhas no sistema financeiro
Ortiz também comenta que as brechas no sistema de controle financeiro favorecem a ação de organizações criminosas.
“Mesmo com os mecanismos do Coaf e do Banco Central, ainda há formas de burlar a identificação da origem do dinheiro. Os criminosos usam empresas de fachada, contas em nome de laranjas e dividem grandes quantias em operações menores para não chamar atenção. Além disso, apostas eletrônicas e criptomoedas permitem movimentar valores sem a necessidade de informar quem está por trás das transações”, explicou.
Ele ressalta que o sistema financeiro brasileiro é avançado, mas a sofisticação dos criminosos evolui na mesma velocidade, exigindo investigações cada vez mais detalhadas.
“Só quando há cruzamento de dados e quebra de sigilos bancário e fiscal é que o esquema costuma ser descoberto”, completou.
Defesa de Buzeira nega irregularidades e diz que ganhos são legítimos
A defesa de Buzeira nega qualquer irregularidade. Segundo os advogados, todos os ganhos do influenciador são legítimos e provenientes de contratos publicitários e promoções online. Em depoimento, ele afirmou faturar entre R$ 1 milhão e R$ 2 milhões por mês.
Já o advogado de Rodrigo Morgado, Felipe Pires de Campos, alega que o contador “atuou dentro da legalidade, prestando serviços contábeis regulares”.
A Polícia Federal, porém, mantém o bloqueio dos bens e segue com diligências para auditar as transações contábeis e rastrear o caminho internacional do dinheiro. A expectativa é de que novos desdobramentos sejam divulgados nas próximas semanas.
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