Economia
O Outro Lado da Taça: Como o Fisco Americano Vai Morder Quase Metade do Prêmio da Copa de 2026

A Copa do Mundo de 2026 promete ser histórica dentro de campo, com 48 seleções e um recorde de US$ 727 milhões em verbas distribuídas pela Fifa (sendo US$ 655 milhões apenas para as seleções). Porém, fora das quatro linhas, uma barreira burocrática e financeira inédita está tirando o sono de federações e atletas: o imposto de renda norte-americano.
Diferente de edições anteriores como o Catar (2022) ou o Brasil (2014), onde os governos locais concederam amplas isenções fiscais para todos os participantes do evento, os Estados Unidos adotaram uma postura rígida. A Fifa não conseguiu fechar um acordo de isenção total com o Tesouro Americano. O resultado? Uma complexa engenharia tributária que penalizará as seleções de forma desigual — e a Seleção Brasileira está no grupo dos mais afetados.
O “Imposto do Campeão”: Quase 50% de Retenção na Final
O tamanho da “mordida” do leão americano (o IRS, órgão equivalente à Receita Federal nos EUA) varia conforme o local dos jogos e o avanço de cada equipe. De acordo com o recente consenso firmado entre as autoridades fiscais dos EUA (IRS), Canadá (CRA) e México (SAT), os prêmios serão tributados proporcionalmente ao número de partidas jogadas em cada território.
O grande problema para quem chegar ao topo é a carga tributária progressiva e local. Especialistas apontam um cenário alarmante caso o Brasil chegue à grande final no MetLife Stadium, em Nova Jersey:
- Imposto Federal (IRS): Alíquota máxima de 37% sobre os ganhos.
- Imposto Estadual (Nova Jersey): Adicional de 10,75%.
Na prática, se os atletas da Seleção Brasileira receberem suas premiações pelo título ou pelas fases finais em solo americano, quase 48% de todo o dinheiro ganho ficará retido na fonte pelos EUA.
O Tabuleiro da Desigualdade Fiscal
Nem todas as 48 seleções sofrerão do mesmo jeito. Apenas 18 países participantes possuem acordos bilaterais contra a bitributação com os Estados Unidos — o que inclui as três sedes, a maior parte dos europeus, Austrália e alguns africanos (como Egito e Marrocos).
O Brasil não possui tratado de bitributação com os EUA, o que coloca a CBF e os jogadores em uma enorme desvantagem competitiva e financeira.
| Situação das Seleções na Copa 2026 | Impacto Prático |
| Com Tratado Fiscais (ex: Europa, Japão) | Protegidos por regras de reciprocidade; evitam pagar imposto em duplicidade. |
| Sem Tratado Fiscais (ex: Brasil, Argentina) | Risco iminente de bitributação (pagar nos EUA e depois novamente no país de origem). |
Para tentar diminuir o estrago, a Fifa costurou uma brecha de última hora com o Tesouro dos EUA, permitindo que as federações nacionais (como a CBF) solicitem o status 501(c) — uma espécie de isenção federal voltada para entidades sem fins lucrativos. No entanto, essa manobra protege apenas o dinheiro que fica com a instituição. Os repasses diretos e bônus pagos a jogadores, treinadores e comissão técnica continuam totalmente expostos.
Burocracia no Vestiário: Foco no Gol ou nos Formulários?
A preocupação com o fisco é tão real que a CBF contratou escritórios de advocacia tributária internacional e consultorias especializadas para blindar o elenco. A intenção é que os atletas foquem no hexacampeonato e não em preencher formulários do governo americano.
Ainda há temores jurídicos sobre uma possível tentativa do IRS de taxar proporcionalmente os salários que os atletas recebem de seus clubes europeus ou brasileiros durante o período em que estiverem prestando serviços dentro do território dos EUA. Embora a CBF trabalhe para afastar essa hipótese, as regras rígidas para “atletas e artistas estrangeiros” nos EUA exigem cuidado cirúrgico.
No final das contas, erguer a taça em Nova York/Nova Jersey em 19 de julho exigirá mais do que talento e tática. Quem quiser levar o prêmio milionário para casa precisará, antes de tudo, vencer o marcador mais implacável do mundo: o sistema tributário norte-americano.
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Por Lucas de Sá Pereira, contador https://contadorlucaspereira.shop/, e colunista do Jornal Contábil e criador do instagram @contadorlucaspereira
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